28/05/2017

Sapphire: chapter 3 - Deal

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 O caminho de volta para casa nunca foi tão animador. Pela primeira vez em meses, Justin tinha pelo que esperar. O encontro com a garota de cabelos azuis o deixara ansioso. Já se imaginava fotografando-a, já se imaginava colocando as fotos reveladas na mesa de sua chefe e a ouvindo dizer que ele podia voltar à equipe, que na verdade ele nunca deixara de pertencer a ela. E além do interesse profissional, Justin estava ansioso para revê-la no palco. Apenas pensar nos movimentos lentos dela fazia o loiro sentir calor e partes específicas do seu corpo latejarem.
 Logo que adentrou o apartamento luxuoso, jogou a bolsa no sofá e teria corrido até seu escritório para organizar alguns equipamentos, se uma Selena furiosa não tivesse surgido já com as mãos nos quadris, um borrão de tubinho preto, meia-fina e sapatos altos. Quando o fazia, ele sabia que mais uma discussão se iniciaria. Sendo assim, ele se deixou cair no sofá junto à bolsa, apenas esperando que ela começasse a falar.
 — Onde você estava? — perguntou antes de qualquer coisa com sua voz fria e ele suspirou, desviando o olhar.
 — Fui tomar um café com o Christian. Desestressar um pouco — era uma verdade parcial. A mulher riu, cheia de sarcasmo.
 — Desestressar? O que pode haver de tão estressante na sua vida, Justin? Você não faz nada! — zombou e aquela resposta acertou-o em cheio, como um soco na boca do estômago.
 Ele queria responder que era ela quem o estava estressando, que além do ócio, ela era uma das coisas que mais lhe roubavam a paz, mas em vez disso, quis evitar que a discussão tomasse um rumo ainda pior.
 — O que está fazendo aqui, afinal, Selena? Não gosta tanto de jogar na minha cara que é a única quem trabalha? Por quê não está trabalhando? — perguntou, erguendo os óculos para massagear as pálpebras e logo correndo as mãos pelos cabelos.
 — As meninas do escritório me chamaram para almoçar na Strip, no meu restaurante favorito, que aposto que nem se lembra mais qual é… — ela disse, dramática e ele rolou os olhos, estalando a língua no céu da boca.
 Maggiano’s. Ela amava comida italiana e eles costumavam ir lá quase todo fim de semana. Ele lembrava tudo à respeito do lugar, inclusive sua mesa favorita. Ele lembrava, acima de tudo, de sempre tirar algumas flores do arranjo em cima da mesa para enfeitar seus cabelos enquanto ela sorria. Mas aquilo não fazia mais sentido. Se fossem ao local, ele apagaria as boas memórias que tinha de lá, tinha certeza. Seriam dois estranhos dividindo uma mesa, assim como eram dois estranhos dividindo uma cama.
 — Mas eu neguei. Disse a elas que queria almoçar com o meu esposo hoje — concluiu, a voz vacilante e naquele momento ele se sentiu culpado, mas logo sua voz endureceu novamente. — Então chego aqui e você não está. Tem noção do quanto me senti estúpida?
 — Me desculpe. Você nunca está em casa, como eu poderia saber? Deveria ter me ligado — ele manteve a voz calma e se levantou, caminhando até ela e acariciando seus braços descobertos. — Estou aqui agora. Podemos almoçar e passar algum tempo juntos.
 Suas mãos passaram delicadamente os cabelos longos dela para um único lado e ele acarinhou seu ombro antes de puxá-la suavemente para mais perto, abraçando sua cintura enquanto os lábios tocavam suavemente sua pele. Mas em vez de abraçá-lo de volta, ela se afastou.
 — Meu horário de almoço acabou. — ela não olhou para trás ao dizer, caminhando até a mesinha de canto na porta, pegando a bolsa e vestindo o casaco. — Tenha uma boa tarde, querido.
 Ele suspirou assim que a porta se fechou atrás dele e ficou mais algum tempo exatamente no mesmo lugar antes de se livrar do próprio casaco e dos mocassins que usava, largando-os por ali mesmo. Se ela estivesse lá, implicaria com sua bagunça. Também implicaria com o fato de ele ter decidido beber rum no meio do dia. Mas ele não dava a mínima.
 Encheu o copo, pegou a bolsa e seguiu para o escritório. Lá ele organizou algumas lentes, alguns papéis e até mesmo elaborou um contrato. Esperava mesmo que Sapphire acabasse assinando-o no fim da noite. Por fim, conectou a câmera ao computador e imprimiu a foto que tirou dela na praça. Recostou-se à cadeira e fitou o papel em seus dedos. A garota da foto, de rosto delicado e vestido rodado mal parecia a mesma que fazia movimentos sensuais no Sapphire gentlemen’s club. Ele se perguntava quantos segredos ela escondia e quantos deles ele descobriria.
 Naquela tarde, Justin ligou para Christian e lhe contou sobre toda a sua aventura, desde quando deixou o café até a proposta que tinha feito à Sapphire. Beadles estava dividido. Ao mesmo tempo que achava que o amigo era um canalha por estar tão obcecado por uma stripper, achava tudo muito excitante desde a ideia de ele estar pensando em voltar à Vogue, até a situação em si. Sendo assim, se comprometeu a ir com ele, “apenas para que ele não ficasse nervoso”, foi o que disse.
 — Vou me sacrificar por você, indo esta noite — Christian disse pelo telefone e Justin riu, rolando os olhos.
— Sim, vai ser um grande sacrifício.


 Quando Sapphire passou pela porta do clube, se escorou na mesma por alguns segundos, chocada. O rapaz a tinha seguido, com certeza, não tinha outra explicação. Tudo porque ela se encaixava no perfil que ele procurava para fotografar… O quão estranho e assustador aquilo parecia? Mais tarde, quando relatou sobre o encontro à amiga, Kimberly surtou.
 — Ele é um gostoso! Já imaginou o quão sexy isso pode ser? Ele tirando fotos suas com pouca roupa, te dizendo exatamente em que posição ficar e que expressão fazer… — Kimberly murmurou, se alongando, antes de correr até a barra de metal que se estendia do chão até o teto, segurando-a firmemente com as mãos e se pendurando de ponta cabeça como se fosse a coisa mais simples de fazer no mundo. Sapphire sabia apenas o básico sobre o pole, aquilo era demais para ela. — E ele ainda vai te pagar Dez mil fucking dólares pela experiência! É o melhor trabalho da vida.
 O rapaz era realmente quente, ela tinha de admitir. Os cabelos loiros despenteados, os lábios rosados, a voz enrouquecida, o corpo bem desenhado guardado pelas roupas refinadas e aqueles olhos claros, escondidos por trás dos óculos de grau. Tudo nele parecia atrativo, perigosamente atrativo.
 — Já parou para pensar na possibilidade de ele querer fazer, sei lá, um book rosa¹? — a garota três anos mais nova perguntou, temerosa. — Minha vida no Sapphire já é complicada, não preciso de mais problemas. Eu… nem sequer sei o nome dele. Que tipo de profissional não diz o próprio nome?
 — O tipo de profissional que não discutiu nada profissionalmente ainda? — sua voz soou irônica e sôfrega por conta da força que fazia para se manter equilibrada apenas com as pernas enquanto todo o corpo estava curvado para trás. — Ele só te deu uma ideia, os detalhes serão ajustados hoje à noite, certo?
 — Certo — respondeu, mas na verdade estava bem incerta. — Quando é que vamos ter uma conversa sem que você esteja nua ou se contorcendo num poste?
 — Provavelmente quando eu estiver velha demais para isto, ou seja, quando eu tiver uns setenta anos — ela segurou novamente a barra com as mãos e deslizou lentamente até parar no chão numa abertura zero e então as duas riram.


 Bieber estava nervoso. Em frente ao espelho, de cueca, tentava decidir o que vestir para parecer mais profissional. Pensou em um terno, mas quem usaria terno num clube de strip-tease? Por fim, acabou optando pelo jeans mais confortável, camisa social branca e blazer preto. Colocou os óculos, se perfumou, deixou os cabelos desalinhados como estavam e pegou a bolsa, mas antes que pudesse sair, ouviu a porta se abrir.
 Justin praguejou mentalmente. Tinha se enrolado um pouco com os preparativos, de modo que o plano de sair antes que a mulher chegasse do trabalho foi por água abaixo. Enquanto ouvia seus saltos se chocando contra o piso branco, ele tentava pensar em alguma desculpa para a pergunta que ele tinha certeza que estava por vir. Logo, ela adentrou o quarto e se jogou dramaticamente na cama, chutando os sapatos para longe. Ergueu o olhar para o marido e antes mesmo de cumprimentá-lo, disparou:
 — Para onde vai? — sua voz soou cansada, baixinha.
 — Christian me chamou para avaliar algumas fotografias da campanha que está gerenciando — ele se surpreendeu com a facilidade com que a mentira saiu de seus lábios. Observou-a pelo espelho e viu seu rosto sem expressão, então virou-se para ela. — Não me espere acordada, talvez eu beba um pouco e você sabe como os táxis demoram…
 Seguiu até ela e beijou-lhe a testa antes de seguir até o escritório e pegar a bolsa. Selena ficou para trás, imóvel. Antes, via seus beijos na testa como um gesto terno, agora, os via apenas como uma estratégia para não beijá-la na boca. Para não ter mais nenhum contato tão íntimo com ela. Ali, na cama vazia, ela apenas se perguntou em que momento se perderam um do outro.
 No elevador, ele correu a mão pelos cabelos, se olhando no espelho. "Nada mal", pensou. Aproveitou para enviar uma mensagem para Christian:

Justin (21:16): estou descendo, é bom estar me esperando ou vou sem você
Beadles (21:17): já estou aqui, sossegue esse seu rabo 

 As portas se abriram no térreo e ele passou pela portaria, seguindo direto para o conversível preto do amigo. Christian tinha um Volvo, Justin um Audi e eles estavam sempre discutindo sobre qual carro era melhor. Mas não naquele dia. Naquele dia não importava qual carro os levaria ao seu destino, contanto que chegassem lá depressa.
 — Sinto como se estivesse te dando uma carona direto para o adultério — Christian disse, assim que o amigo colocou o cinto e ele deu a partida.
 — Não estou traindo minha mulher, Chris. Isto é estritamente profissional — Justin disse e, tentava se convencer mentalmente daquilo também.
 A verdade era que desde que pôs os olhos pela primeira vez em Sapphire, ele a desejou. Sua capacidade de pensar racionalmente se perdeu naquela noite. Quando ela movia os quadris, ele queria que os estivesse movendo sobre ele. Quando ela entreabria os lábios, ele queria que fosse para gemer seu nome. Ele podia negar o quanto quisesse, mas a ereção matinal que ele teve de “resolver” depois do sonho erótico que teve com a stripper não o deixava esquecer que aquilo ia um pouco além do profissional. Mas ele não estava errado, estava? Não enquanto ele apenas a apreciasse. Ele só estaria perdido se a tocasse. Se ele a tocasse, não haveria mais volta.
 Era sexta-feira à noite e o clube estava mais lotado do que nunca. Mal passaram pela porta e algumas garotas já os cercaram, oferecendo os mais variados tipos de serviço. Christian estava prestes à seguir uma ruiva para um reservado quando Justin saiu o arrastando pela camisa, lembrando-o do verdadeiro motivo de estarem ali.
 — Você é o único aqui à negócios. Eu posso me divertir — protestou e Justin se sentou na mesma mesa que ocupara no dia anterior, esperando que o amigo fizesse o mesmo.
 — Cale a boca. Pode “se divertir” com quantas garotas quiser, depois que ela assinar o contrato. Você está aqui para atestar minha credibilidade — resmungou e logo que viu o garçom passar, o chamou. — Uma garrafa de whisky, por favor.
 — O seu fígado vai morrer bem antes de você, nesse ritmo. — Christian observou quando o garçom lhe trouxe o pedido e Justin deu de ombros. — Aliás, você sabe que existe a possibilidade de ela recusar a proposta, não sabe?
 — Confio no meu taco — Justin disse simples e Christian teria feito uma piada suja com aquilo se as luzes do palco não tivessem ficado azuis. Ambos conheciam o sinal. Ela estava vindo.
 Sapphire vestia meias arrastão, botas de cano longo, top e um short de couro tão curto que parecia roupa de baixo. Ela nunca usava mais que preto. Assim que pisou no palco seus olhos se encontraram com os dele e ela sorriu de canto. Ambos perderam o ar, respirando fundo. Get sexy, Sugababes, se fez ouvir enquanto ela era ovacionada. Todos estavam olhando para ela e ela olhava para ele enquanto caminhava até o centro do palco. Não havia uma cadeira, Justin se perguntava o que ela faria, enquanto seu coração agitado pulava no peito. Ele encheu o copo com o whisky e girou as pedras de gelo na bebida, semicerrando os olhos e umedecendo os lábios.
 Ela caminhou lentamente até o centro do palco, as luzes azuis piscando freneticamente. Quando as primeiras palavras se fizeram ouvir ela desceu até o chão de uma só vez, abrindo as pernas quando abaixou completamente. When I'm walking down the street / They say hey sexy, hey sexy. Com as mãos apoiadas no chão, moveu os quadris no ritmo e jogou os cabelos para o lado. When I'm dancing in the club / They say hey sexy, hey sexy. Apoiou-se nos joelhos e levantou lentamente, correndo as mãos pelo próprio corpo no caminho e ficando de costas. When I'm driving in my car / Or I'm standing at the bar / It don't matter where I are / They say hey sexy, hey sexy. Ela girou os quadris lentamente e olhou o público através do ombro antes de caminhar até o poste no canto do palco.
 — Oh, man, ela é quente, não é? — Christian gritou no ouvido de Justin, mas ele não respondeu. Ele não conseguia e nem queria desviar sua atenção dela.
 Sua garganta estava seca, enquanto sua cueca ficava molhada. Ele bebeu longos goles de whisky, enquanto a garota segurava no ferro, ainda de costas e descia e subia pelo mesmo. Silly boys / They lovin' me so much. E então ela se virou, dando impulso com as mãos e agarrando-se ao poste com as pernas, enquanto olhava diretamente para ele como se lhe passasse um recado: Silly boys / You can look but you can't touch. E então ela estava girando, as pernas no ar e os cabelos como um borrão azul. Silly boys / I ain't got no time to talk / Silly boys / Just shut up and watch me walk. Ela desceu e bateu duas palmas junto com a música, como se batesse a poeira das mesmas, enquanto movia o corpo junto à batida, possuída pelo ritmo. Enquanto ela estivesse no palco e ele na platéia, seu objetivo era enlouquecê-lo, e oh, ela o fazia. Ela ficou de quatro e requebrou a cintura junto à batida.  Cos I'm too sexy in this club / Too sexy in this club / So sexy it hurts. Ela rolou no chão, ficando de barriga para cima enquanto corria as mãos pelo corpo quente. Ela o olhou, como se desejasse que fossem suas mãos a tocá-la. Talvez ela realmente quisesse. Talvez. If you feel sexy in this club / Then go 'head toast it up Take it down let's get sexy Right now (now).
 Ao fim da música ela caminhou de volta para o backstage, os saltos altos pisoteando as várias notas que cobriam o chão do palco, jogadas durante sua apresentação, enquanto os gritos eram ensurdecedores. Nem um terço daquele dinheiro ia para ela. Benny, o dono do club, embolsava quase tudo. As garotas sabiam que estavam sendo negligenciadas, mas não podiam fazer muita coisa. Ou aceitavam o que lhes era oferecido ou eram facilmente substituídas.
 Antes de sumir das vistas de todos, Sapphire meneou levemente com a cabeça na direção de Justin, um gesto simples que se ele não estivesse prestando a devida atenção, não entenderia. Ela o estava chamando e ele não queria fazê-la esperar. Virou mais um copo de whisky para lhe dar coragem e permaneceu algum tempo no mesmo lugar.
— Não deveríamos encontrá-la logo? — Beadles perguntou e Justin suspirou.
—  Só um instante, preciso me acalmar — disse simples e Christian assentiu, entendendo. Ele sabia que Justin estava duro, ele também estava.
 Em frente ao espelho do camarim, Sapphire tentava desesperadamente colocar os cabelos no lugar. Tinha jogado o velho sobretudo preto por cima da falta de roupas e agora tentava se convencer com o olhar de que tudo correria bem. Ao seu lado, Kimberly — devidamente vestida, na medida do possível — ria do estado da amiga, o que lhe rendia alguns olhares fulminantes. Ela temia que ele fosse um charlatão, mas também temia que não fosse e, caso fizesse algo errado, ele acabasse desistindo. Ela precisava do dinheiro, precisava de um recomeço. Ele precisava das fotos, precisava de uma chance. Eles precisavam um do outro.
 Houve um agito no camarim, algumas garotas reclamando e outras simplesmente cochichando entre si e fazendo comentários sujos. As amigas não precisariam virar para saber que ele estava lá, mas o fizeram, apenas para vê-lo cruzar o local apertado com outro cara em seu encalço. Os garotos chamavam muita atenção, pareciam modelos.
 Christian lhes pareceu igualmente sedutor. Tinha cabelos claros e desalinhados que combinavam perfeitamente com os olhos intensamente verdes e a camisa preta de manga longa parcialmente aberta, que parecia ter sido feita especialmente para provocar as moças. Se era o objetivo, ele cumpria bem. O que completava o pacote era a personalidade do rapaz, ao contrário de Justin que se encontrava sério, o outro cantarolava alguma música do Usher que tocava na boate, ensaiando alguns passinhos. Aquilo fez Sapphire rir nasalado.
 — Com licença, cavalheiros. Vocês não têm permissão para entrar aq… — Melanie, uma das garotas mais velhas do club, os interceptou, mas Kimberly a interrompeu, impaciente.
 — Eles estão conosco, querida, relaxe — disse e sorriu completamente falsa. Simplesmente detestava a garota. Ela gostava de infernizar a vida das outras, apenas porque era uma das protegidas de Benny. “Grande merda”, Kimberly não cansava de dizer. — Boa noite, senhores. Queiram nos acompanhar ao nosso escritório, por favor.
 A garota saiu à frente, os quadris balançando conforme andava em seu chamativo short jeans que mostrava a polpa do bumbum. Sapphire rolou os olhos, sorrindo fraco, pois sabia que a amiga queria mesmo chamar a atenção dos rapazes. E conseguiu, Christian nem disfarçava ao olhar o balanço dela ao andar. Eles a seguiram escadas acima e pelo longo corredor que dava nos quartos. Os barulhos característicos de camas se chocando contra a parede e gritos fizeram Sapphire se sentir desconfortável, mais do que o normal. Não queria que os caras pensassem que ela entregava o corpo para qualquer um como as outras. Por algum motivo, o que eles pensavam sobre ela lhe importava mais do que deveria, já que tinham acabado de se conhecer. Quando enfim adentraram o quarto, as garotas se sentaram em uma cama e os rapazes na outra. Sapphire cruzou as pernas e uma delas ficou exposta para fora do sobretudo preto, atraindo o olhar compenetrado de Justin.
 — Erm… Meu nome é Christian Beadles e este é Justin Bieber. É um prazer conhecer vocês — Christian tomou frente, quebrando o silêncio, vendo que ninguém o faria. — Eu sou diretor de arte da empresa FVI² de publicidade e meu amigo é ex fotógrafo da Vogue, atualmente trabalhando de forma autônoma.
 — Isso quer dizer que ele está desempregado? — Kimberly foi direta, o que fez Sapphire, arregalar os olhos para a amiga, Christian gargalhar e Justin coçar a nuca se sentindo um perdedor. — Sou Kimberly e esta é Sapphire. Seu amigo disse que tem uma proposta interessante para ela. 
 Sapphire achou graça no fato da “negociação” estar sendo desenrolada mais por Kimberly e Christian do que por eles próprios, mas naquele momento, tudo o que ela podia pensar era que aquele rosto finalmente tinha um nome. Justin Bieber. O cara que estava disposto a mudar sua vida. Ela não ergueu o olhar para ele por um tempo, apenas tentando absorver as informações que Christian despejava aos montes, mas podia sentir um olhar forte sobre ela.
 — Que tipo de fotos você pretende fazer? — ela finalmente disse algo, atraindo a atenção de Justin e pela primeira vez observou seus olhos de perto. Castanhos deitando-se no mel. Intensamente.
 Ele umedeceu os lábios, apoiando os cotovelos nas pernas e cruzando as mãos. Ele queria passar uma impressão séria, mas ela apenas o achou sexy daquele modo. Sexy e inseguro, ela podia ver, aquilo quase a fez rir, mas ela se segurou.
 — Fotos artísticas. Existem infinitas possibilidades, mas nada com o que não esteja confortável — Justin respondeu calmamente, mas as mãos se retorcendo transpareciam sua inquietação. — Há um termo a ser lido que pode lhe esclarecer tudo melhor.
 Ele lhe estendeu uma folha de papel que tirou de dentro da bolsa e quando seus dedos se tocaram levemente, ela sentiu uma corrente elétrica percorrer todo seu corpo, causando o mesmo desconforto incomum que sentira quando se encontraram mais cedo. Ela suspirou, recolhendo a mão rapidamente, tentando não tremer tanto enquanto segurava o papel. Kim se aproximou e ambas correram os olhos pelas normas e apêndices tediosos sobre direitos de imagem e outras coisas mais, enquanto Justin e Christian se entreolhavam com expectativa.
 — Me parece tudo certo — Sapphire disse, erguendo os olhos do papel para os garotos. — Onde eu assino?
 A boca de Justin se entreabriu e ele permaneceu calado, incerto do que tinha ouvido. O silêncio se instalou no quarto, todos permaneceram imóveis, como se alguém tivesse dado "pause" na cena. Sendo assim, Sapphire procurou onde deveria deixar sua rubrica e se esticou até Justin, aproximando-se somente o suficiente para tirar a caneta que estava no bolso de seu blazer. Era de prata, com detalhes dourados. Ele era rico, ela concluiu. Os dois eram, ela podia dizer isso apenas olhando para suas roupas. Enfim, ela assinou o termo. Sapphire, em uma letra desleixada e rabiscada. O acordo estava fechado.
 — Pronto. Quando começamos? Tenho todas as tardes livres. — mentiu. Ela tinha de ensaiar à tarde, mas sempre podia escapar.
 — Segunda-feira. Eu venho buscá-la ao meio-dia — ele disse, empolgado e incrédulo.
 Aquele era o horário em que Selena entrava no trabalho. Vendo por aquele lado, indo buscar outra mulher exatamente quando a sua estava longe, parecia um adultério, embora não fosse um. 
 — Vou estar esperando — ela disse e se levantou, estirando a mão para o mesmo.
 Ele apertou sua mão, olhos nos olhos e ambos sentiram como se as peles em contato queimassem, não o suficiente para fazê-los sentir dor, apenas... outra coisa. O cumprimento demorou alguns minutos, pois ele estava vidrado em seus olhos fortes, contornados pelo delineador e então em sua boca voluptuosa tingida de batom vermelho. Ela, por sua vez, encarava seu lábio inferior, que estava entre os dentes enquanto a analisava. Christian riu de algo que Kimberly disse, alto e despreocupado e ambos se afastaram, acordando do transe. Justin se afastou para cumprimentar Kimberly, enquanto Christian caminhou até Sapphire.
 — Enchanté, mademoiselle — ele disse, no mais perfeito sotaque francês e Justin revirou os olhos. Christian sempre recorria ao francês quando queria dar em cima de alguma garota. Ele tomou a mão de Sapphire e a levou aos lábios, beijando suavemente, o que fez a garota rir.
 — Au revoir, monsieur Beadles — respondeu à altura, surpreendendo à todos. Os pais a fizeram ter aulas de francês desde quando estava sendo alfabetizada, para que no futuro pudesse se destacar profissionalmente. E agora ela era uma stripper.
 Os rapazes estavam passando pela porta, novamente guiados por Kimberly, quando Sapphire chamou o nome de Justin, experimentando o modo quente como ele soava em seus lábios. Ele recuou, olhando para ela e a mesma abriu e fechou a boca inúmera vezes antes de finalmente conseguir falar:
 — Por quê eu? — disse e ele franziu a testa, então ela balançou a cabeça, tentando organizar os pensamentos. — Existem milhares de garotas em Las Vegas. Garotas mais bonitas. Garotas que não... bem... fazem o que eu faço. Por que você me escolheu?
 Justin parou para pensar sobre aquilo novamente. Aqueles mesmos questionamentos rondavam sua cabeça de novo e de novo. Ele não sabia explicar porquê a havia escolhido, porquê continuava querendo vê-la, por mais errado que fosse, porquê ela o inspirava tanto. Ele só conseguia dizer o que seus olhos de fotógrafo viam.
 — Porque você tem presença e expressão forte. Porque seu rosto parece ter sido sido esculpido por anjos e seu corpo detalhadamente pensado para ser perfeito. Porque seus cabelos são os mais lindos que eu já vi. Porque você é uma obra de arte, Sapphire, e merece ser mostrada ao mundo.
 Ela ficou sem palavras, respirando pesadamente. Ele, por sua vez ajeitou os óculos no rosto e sorriu fraco para a mesma, dando as costas e seguindo o amigo. A garota ficou para trás e se jogou na cama, pensativa. Sorriu para o teto, repassando suas palavras, sua voz e expressão enquanto dizia. Ali começava sua perdição.

サファイア

 ¹Book Rosa: é uma expressão utilizada por algumas agências de modelo para designar um catálogo de profissionais que prestam serviços sexuais em troca de bonificações.
 ²FVI: Nome de empresa completamente fictícia

 N/A: Hello, sweeties! Outro capítulo para vocês. Ah, eu estou achando tão amor a aproximação desses dois. Eu sei que tem um adultério envolvido e tudo mais, porém isso é muito do que uma história sobre traição e atração. Aos poucos, espero que vocês percebam isso. Ah, eu senti tanta falta de escrever sobre o Christian (Chaz também, mas fica para uma próxima)! Ele é um dos melhores personagens da fic, senão o melhor. <3 Tive um comentário no capítulo passado — yay, um avanço —, um "continua" e apenas isso já me fez feliz, mas eu gostaria muito que me dessem opiniões também, ok? Críticas são sempre bem-vindas.


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